Pastor de Sonhos nas Horas Vagas
Sou vários dentro de mim, e nenhum me pertence inteiro,
um escritório de silêncios onde o eu faz de estrangeiro.
Tenho a alma escrita em papel que o vento rasga devagar,
e um relógio que não sabe se há-de andar ou parar.
Pastor de sonhos nas horas vagas, levo rebanhos de nuvens gastas,
por vales onde a realidade tropeça nas próprias castas.
Assobio à vida como quem desafia o seu destino,
e ela ri-se de mim, com um riso meio divino, meio assassino.
Há noites em que escrevo versos num copo de solidão,
e bebo palavras que ardem como gasolina na mão.
Sou um poeta em fuga de tudo o que me quer prender,
até da própria poesia que insiste em sobreviver.
Digo ao mundo “vai-te embora” com um sorriso a gozar,
e ele responde-me em silêncio: “não sabes viver sem ficar”.
E entre a regra e a rebeldia faço a minha confissão:
sou uma esquina sem mapa dentro de uma grande cidade em colisão.
Pastor de sonhos nas horas vagas, guardo o impossível no bolso do casaco,
e lanço-lhe pedras ao futuro só para ouvi-lo ficar fraco.
Mas no fundo, quando a noite me despe de toda a razão,
sou apenas alguém a tentar caber dentro do próprio coração.
Paulo Brites
2026.04.12
Paulo Brites Poesia - Paulo Brites Fotografia - India

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